Os modelos que testámos — e os que ficaram em permanência
Pela máquina passaram trinta e duas versões configuradas de modelos. Ficaram em permanência dez perfis de trabalho construídos sobre quatro ficheiros. Eis o que decidia a promoção e o que ditava a eliminação — e porque é que um ficheiro mais caro nem sempre significa melhor.
Quatro ficheiros, dez modos de trabalho
Um modelo é um ficheiro no disco, mas o mesmo ficheiro pode expor-se de várias maneiras: com raciocínio ou sem, com definições para conversa ou para código. Isto não custa memória — a máquina mantém, de qualquer forma, um modelo de cada vez. Daí que quatro ficheiros (cerca de 70 GB no total) sirvam dez perfis.
| Modelo | Escreve | Lê | Contexto | Vê imagem | Para onde foi |
|---|---|---|---|---|---|
| Gemma 4, 26 mil milhões (especialistas) | 200/s | 7011/s | 262 mil | sim | padrão para tudo |
| Qwen 3.6, 35 mil milhões (especialistas) | 132–185/s | 4970/s | 262 mil | não | programação e trabalho de agente |
| Gemma 4, 31 mil milhões (clássico) | 72/s | 2204/s | 164 mil | sim | o melhor polaco da seleção, documentos |
| Qwen 3.6, 27 mil milhões (clássico) | 59–72/s | 2100/s | 262 mil | não | tarefas que exigem precisão |
Os números são tokens por segundo: escrita da resposta e leitura do texto de entrada.
De especialistas ou clássico — a única diferença que é preciso entender
O modelo clássico recalcula todos os seus parâmetros a cada palavra. O modelo de especialistas divide-se em muitos especialistas dedicados e ativa apenas alguns de cada vez — dos 35 mil milhões de parâmetros trabalham, na prática, três. Efeito: é muito mais rápido com o mesmo tamanho de ficheiro.
Parece lucro puro, mas não é. No teste de programação, em que os modelos escreviam projetos sozinhos, todas as variantes demoraram um tempo quase idêntico — de 3,78 a 3,80 horas para o conjunto de dez tarefas, apesar de uma diferença de duas vezes e meia na velocidade de escrita. Chegavam ao destino por caminhos diferentes: o clássico gera devagar, mas raramente se engana (834 passos); o de especialistas gera depressa e compensa com tentativas (1987 passos).
A diferença prática está noutro lugar: o clássico consome menos 39% de contexto, o que tem importância ao trabalhar sobre um projeto grande já existente. O de especialistas faz mais — mais 44% de testes e mais 26% de código.
Compressão do modelo: onde cedemos e onde não
Os modelos são publicados em versão de precisão completa, mas para casa descarrega-se a versão comprimida — de outro modo nada caberia. Fomos ver quanto essa compressão custa realmente em qualidade.
Passámos pelo mesmo conjunto de tarefas (polaco, raciocínio, código, quebra-cabeças lógicos) o mesmo modelo em três graus de compressão: forte, média e leve. Os três passaram sem diferença de qualidade. Os quebra-cabeças, resolvidos corretamente em todas as passagens.
A compressão mais leve, essa, custa coisas concretas: no modelo clássico, velocidade e contexto ao mesmo tempo (passar para uma precisão claramente melhor são −25% de velocidade); no de especialistas, quase só contexto. Se a qualidade não melhora e o contexto cai — a escolha era óbvia. Em produção está a versão fortemente comprimida.
Há uma exceção digna de nota. Os modelos Gemma são preparados para a compressão ainda durante o treino, por isso suportam-na excecionalmente bem. É também por isso que têm, na nossa seleção, o melhor polaco — a nossa língua nativa, e uma das mais difíceis de acertar; o que vale para ela deverá valer igualmente para o seu português.
O que caiu e porquê
O modelo polaco (Bielik, 11 mil milhões). Polaco natural, raciocínio e código corretos, responde diretamente, sem ponderações arrastadas. Caiu por duas coisas: o contexto acaba nos 32 768 tokens (limitação do próprio modelo) e não suporta a aceleração pelo modelo auxiliar. Num conjunto em que o resto assenta em 262 mil tokens de contexto, foi-lhe difícil encontrar aplicação.
Os Gemma mais pequenos (12 mil milhões). São os únicos que veem imagem, vídeo e ouvem som, têm um polaco elegante e resultados razoáveis. Ficaram fora de produção porque os modelos maiores cabem sem problema — e, se cabem, não há razão para descer.
O modelo especializado em código (30 mil milhões). Tem um formato de chamada de ferramentas diferente do resto e exige uma preparação à parte. Aguarda avaliação de qualidade; o contexto e a memória já os tem verificados.
A leitura obedece a uma ordem diferente da escrita
Vale a pena separar isto, porque a escolha do modelo depende do que se faz com ele.
Na escrita decide a largura de banda da memória da placa — aqui ganham os modelos de especialistas com modelo auxiliar (140–200 tokens por segundo). Na leitura decide o poder de cálculo, e as duas placas repartem de facto o trabalho. A ordem muda: os grandes modelos clássicos saem-se aqui três vezes pior do que os de especialistas da mesma classe, e os pequenos modelos clássicos voltam a subir, porque têm pesos leves.
Regra prática: quando o pedido é sobretudo material para ler (revisão de um projeto, um documento longo) — conta a leitura. Quando a pergunta é curta e a resposta longa — conta a escrita.
As definições podem custar mais do que a escolha do modelo
O resultado mais surpreendente desta série. O mesmo modelo, o mesmo ficheiro, a mesma memória — a diferença apenas nas definições de geração recomendadas pelo fabricante para o modo sem raciocínio. Custo: 29% da velocidade de escrita (132 contra 185 tokens por segundo).
O mecanismo é compreensível: essas definições alteram a distribuição de probabilidade das palavras seguintes, pelo que o modelo auxiliar acerta menos vezes e a aceleração da especulação derrete. Conclusão para quem afina uma máquina destas: as penalizações por repetição saem mais caras numa configuração com modelo auxiliar do que numa normal — ao olhar para a qualidade da saída, convém olhar ao mesmo tempo para a velocidade.
Todos os números vêm de medições próprias: 2 × RTX 5070 Ti 16 GB, um modelo de cada vez, medição através do mesmo servidor que usamos no dia a dia.